Incidentes críticos: suas fases, espécies e características.

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Como se desenvolve e como se diferencia um incidente crítico na visão do sistema de gerenciamento de incidente

Por Valmor Saraiva Racorti – Revisado por Wellington Reis

Diuturnamente as organizações públicas agem em ocorrências e situações com risco à vida e integridade física de pessoas, danos ao patrimônio e riscos ao meio ambiente, tais ocorrências podem ser conceituadas como incidentes. Sendo que incidente é “uma ocorrência natural ou de causas humanas que necessita de uma resposta para proteger a vida ou a propriedade” (FEMA, 2017). Assim, percebe-se que um incidente pode ser algo natural ou provocado que interfere na ordem natural dos acontecimentos.

Todo cenário que necessitar de tal resposta será um incidente, contudo, devido a sua complexidade e necessidade de envolvimento de vários setores, públicos ou privados, somado à intensidade das consequências apresentadas, ou possíveis de serem apresentadas, à capacidade de resposta das primeiras agências no momento da eclosão do incidente – capacidade de resposta dada pelo seu treinamento e equipamentos apropriados para atendimento desse incidente – essa situação é considerada um incidente crítico.

Um incidente crítico é aqui entendido como qualquer evento que coloque vidas em risco, cause danos graves a patrimônio ou ao meio ambiente, cause impacto significativo na confiança da sociedade e, por conseguinte, na sensação de segurança, exigindo uma resposta célere e integrada de diversos órgãos e instituições com emprego conjugado de meios e gestão estratégica para sua resolução (RACORTI, 2019).

Ao se observar a incidência de um evento crítico, a resposta da sociedade, através de seus órgãos públicos e particulares, deve ser ágil, integrado e resiliente frente à adversidade, a fim de evitar que seus efeitos se agravem, buscando a eficiência, para tanto, deve-se aplicar o estado da arte das ciências policiais voltado para o gerenciamento de incidentes, de modo a mitigar, prevenir, responder e recuperar os efeitos postulados dessas causas, a fim de evitar ou minimizar os efeitos dos incidentes.

Variedade de incidentes críticos

Buscando uma visão didática de forma a simplificar a explanação dos incidentes críticos, é possível classificá-los em quatro tipos, podendo ser desdobrados em outros tantos diversos. Aqueles doutrinariamente visíveis são:

O primeiro tipo consiste no incidente crítico que se materializa durante algum tipo de desastre natural típico, tais como terremotos, furacões, tornados, nevasca e ciclones “ bomba”, como ocorreram recentemente na região sul do Brasil. Tais incidentes tem como característica principal não existir a interferência humana ou volitiva na sua causa, tratam-se de fenômenos naturais.

As ações dos respondedores serão voltadas às evacuações, resgates, buscas ou qualquer combinação entre essas. Os efeitos adversos causados pelo incidente serão mitigados e podem ser reduzidos se houver a antecipação e envio de alerta às áreas que serão atingidas, tomando as medidas necessárias para mitigação dos seus efeitos, contudo, o incidente crítico, via de regra, não pode ser impedido, apenas mitigado.

Figura 1- Furação Dennis – Key West – Florida
(Fonte:  1 – Imagem de David Mark por Pixabay)

O segundo tipo são aqueles incidentes de natureza “mecânica”, tais como descarrilamento ferroviário, derramamento de material tóxico, acidentes de trânsito com grande número de vítimas e acidente de avião como o ocorrido em São Paulo com o Fokker 100 da TAM, 31 de outubro de 1996, no Aeroporto de Congonhas, entre outros. Nessa situação trata-se de ações que podem envolver as ações humanas, geralmente de forma involuntária, destacadas através de falta de manutenção, erro humano e outras ações que não sejam ações volitivas humanas, o fator humano é presente, mas não é o único que age na causa do incidente crítico.

Figura 2 – acidente de avião
(Fonte:  2 Imagem de Wikilmages por Pixabay)

Os desastres mecânicos podem ser muito dramáticos, com danos e perda de vidas, mas há a possiblidade de redução de tais incidentes através de medidas de proteção para atenuar os efeitos de desgaste dos materiais envolvidos, isso porque envolvem fatores como fadiga, corrosão, erosão, decomposição e assim por diante, tais falhas e situações podem ser estimadas.

Assim sendo, as ações como manutenção preventiva, revisão, reparo, recondicionamento ou substituição, diminuem a probabilidade de falha e os efeitos adversos, caso ainda ocorram. Este ponto é facilmente ilustrado em colisões de tráfego: a adesão às leis de trânsito reduz os acidentes, mas não os elimina, cintos de segurança, airbags e “zonas de esmagamento” nos carros reduzem lesões em acidentes de trânsito, mas também não os eliminam.

O terceiro tipo envolve situações com agentes químicos, biológicos, radiológicos, nucleares e explosivos (QBRNE) – ou da sigla em inglês chemical, biological, radiological, nuclear and explosives agents ( CBRNE). As agências devem reconhecer que as atuações no ambiente CBRNE são altamente especializadas, com treinamento distinto e requisitos de equipamentos diferenciados. Esses incidentes normalmente terão uma resposta regional coordenada por múltiplas agências, pública ou privadas, em suas mais diversas esferas (municipal, estadual ou federal).

Um incidente de tal tipo ocorrido no Brasil, precisamente na cidade de Goiânia, pode ser considerado um dos maiores incidentes radiológicos registrados no mundo, sendo esse causado pela substância Césio 137 – substância radioativa que se espalhou por Goiânia e ocasionou quatro mortes, além de deixar mais de mil pessoas contaminadas.

O quarto tipo trata dos incidentes críticos de conflito, situação na qual existe um ou mais suspeitos que devem ser capturados, imobilizados ou eliminados. Os exemplos incluem, marginais barricados, tomadores de reféns, criminosos em fuga, ações de quadrilhas organizadas ultraviolentas, entre outros. Ao contrário dos demais incidentes, nesse caso há a ação volitiva de um agente humano, quer seja submetido por vontade e raciocínio próprio ou por doenças e perturbações mentais.

Embora os três primeiros incidentes críticos possam resultar em um grande número de vítimas, devido as consequências decorrentes, tais como incêndios de grandes proporções, inundações, quedas de avião, derramamentos de materiais tóxicos, os incidentes de conflito apresentam um agente adversário que está envolvido ativamente, buscando frustrar a vontade do agente público, agindo de maneira racional ou forçada por problemas e/ou perturbações mentais.

Os incidentes de conflito são mais perigosos e complexos, atuando por diversas vezes na psique humana, o que evidencia a necessidade lógica de que, para que as instituições públicas tenham sucesso, o suspeito ou o grupo sejam desencorajados de iniciarem ou prosseguirem em seus objetivos ilegais, ou ainda, que os agentes públicos reconheçam a inabilidade e entendimento dos agentes agressores e possam agir de forma célere e efetiva contra eles.

A objetivo buscado pelos responsáveis pela resolução do incidente é que este seja resolvido com sucesso, com o mínimo de perdas de vida, ferimentos ou danos, pois, qualquer que seja o incidente crítico, a intervenção ao evento será sempre julgada pelo resultado.

Fases do incidente crítico

Segundo a Agência Federal Americana Federal Bureau of Investigations (FBI) dos Estados Unidos da América (EUA) uma gestão de incidentes eficaz desenvolve-se cronologicamente em quatro fases. Conforme segue:

  • Fase I: Mitigação;
  • Fase II: Preparação;
  • Fase III: Resposta;
  • Fase IV: Recuperação.

A primeira fase é a mitigação refere-se a atividades projetadas para prevenir, evitar ou reduzir as perdas decorrentes dos incidentes. Os esforços de mitigação quase sempre envolvem ações de longo prazo, como reforço de estruturas, instalação de fontes de energia de backup para instalações críticas, educação da comunidade, aprovação de códigos de construção, zoneamento e alterações no ordenamento jurídico.

A segunda fase é a preparação, esta fase está focada no planejamento para uma resposta eficaz, necessariamente inclui estabelecer prioridades, organizar, equipar e treinar pessoal para as funções esperadas quando necessárias. Da mesma forma, essa fase inclui a realização de exercícios práticos para testar planos de contingência e simulações, buscando uma melhora continua e integração dos Órgãos Públicos e Privados, bem como a comunidade envolvida.

Não obstante as condições ambiciosas ou modestas de um programa de uma organização pública ou privada , é essencial que haja treinamento continuado, quando se busca assegurar uma probabilidade razoável de sucesso.

Quando comparadas às atividades envolvidas nas demais fases, essas ações tendem a ser as mais efetivas em termos de custo e efetividade.

Figura 3 – Treinamento do Grupo de Ações Táticas Especias (G.A.T.E.) da PMESP
(Fonte:  3 Acervo pessoal)

A fase de resposta envolve a mobilização de pessoal e equipamento para responder a uma situação prevista ou em desenvolvimento. As ações na fase de resposta são, necessariamente, fortemente focadas na preservação da vida e da propriedade e incluem ações como evacuações, quarentenas, buscas e resgates, primeiros socorros, combate a incêndios, prisões, abrigo e desinfecção.

Essa fase pode incluir funcionários públicos e voluntários da comunidade devidamente treinados e credenciados, contudo, ela é predominantemente composta por profissionais dos serviços de segurança, particularmente os bombeiros e policiais.

A última fase é a recuperação, a qual, na medida do possível, as atividades concentram-se em restaurar rapidamente uma área e pessoas afetadas ao seu estado anterior, essa fase geralmente se sobrepõe à fase de resposta e começa o restabelecimento da ordem, como a fase de recuperação tende a ser prolongada e, de fato, integra-se com fase de uma nova fase de mitigação na preparação para outro episódio, encerrando e iniciando um novo ciclo de aprendizagem e atuação.

Características dos incidentes críticos.

Segundo o doutrinador americano Sid Heal, em seu livro “Field Command” (2012), reconhece cinco características existentes em todos os incidentes críticos:

Primeiro é a incerteza, sempre há uma falta de informações e normalmente o que está disponível é incompleto, confuso, ambíguo e, às vezes, até conflitante. Embora seja verdadeira em todos os incidentes, é especialmente maior nos incidentes de conflito.

Isso ocorre porque a própria natureza do incidente de conflito impossibilita a certeza do que de fato está ocorrendo nos momentos iniciais. A interação dinâmica entre a vontade do suspeito e a vontade do gestor torna os conflitos especialmente difíceis e complexos. A incerteza está sempre presente e permeia essas situações devido à falta de conhecimento sobre o suspeito, terreno, clima, vítimas e até dos outros agentes dos órgãos públicos e privados.

Essa incerteza exige que os tomadores de decisão do incidente tomem atitudes nos momentos iniciais baseados em probabilidades para as quais, invariavelmente, faltam informações, este momento é descrito como o “momento do caos”.

O “momento do caos” pode ser definido como o momento em que ocorre a quebra da ordem pública de forma violenta e abrupta, com perspectiva real e iminente de resultados letais, ou de danos graves sendo que seus efeitos podem seguir, mesmo sem restrição espacial, devido às características do incidente, destaca-se pela forma confusa, desordenada, com poucas informações e escassez de recursos (RACORTI 2019).

A gestão apropriada do incidente nos momentos iniciais é essencial para um resultado positivo e caracteriza-se por um período de ação contínua e célere, momento que as animosidades e conceitos políticos podem e devem ser deixados de lado, sendo necessário agir de forma coordenada, conseguida através de um planejamento inicial.

A segunda característica dos incidentes é que eles são sensíveis ao tempo sendo únicos e temporários. São únicos pois provêm de fatores que estão inseridos em um determinado lugar, circunstâncias e momento. São temporários porque os resultados que ocorrem durante o evento afetam o próximo conjunto de circunstâncias.

Em um incidente crítico de conflito, o agressor que pode explorar mais rapidamente as circunstâncias em seu benefício ganha uma vantagem. Além disso, uma decisão e/ou ação atrasada muitas vezes se torna ineficaz porque as circunstâncias terão mudado.

Assim, todas as operações táticas são sensíveis ao tempo, quando um agressor está envolvido, eles não estão apenas sensíveis ao tempo, mas também competitivos ao tempo.

A terceira característica é o potencial de consequências graves. Todos os incidentes críticos são definidos como uma mudança inerente, abrupta e decisiva. Por isso não podemos atuar com uma resposta tímida e sem brilho, as contramedidas devem ser nas proporcionais para impedir para que os eventos não se potencializem mais, carecendo de uma tomada de decisão eficaz.

Da mesma forma, é improvável que uma intervenção descoordenada, desorganizada ou fora de foco evite um agravamento do incidente. Por exemplo, considere uma situação em que uma escola está sendo alvo de pichações e vandalismo de adolescentes durante o horário de intervalo na escola., a aplicação da lei pode reduzir a probabilidade desses atos, mantendo uma alta visibilidade, interpelando pessoas suspeitas e aplicando rigorosamente as ações corretivas no ambiente escolar. Eles podem até pedir aos funcionários da escola que fechem suas áreas de recreações durante esses períodos.

Da mesma forma, eles podem reduzir os danos e incentivos empregando ações de redução, como remover imediatamente o grafite e incentivar apoio da comunidade escolar com a participação de todos no processo. O mesmo acontece com operações táticas. Embora o risco nunca possa ser completamente eliminado, é responsabilidade dos comandantes táticos reduzi-lo ao máximo possível.

O quarto fator identificado por Heal é a presença do elemento humano é um elemento imprescindível. De fato, sem um impacto sobre os seres humanos, é impossível ocorrer um incidente crítico. De lado está quem vai atuar na resposta – desenvolvendo esforços para a solução a crise, o evento é moldado pela preparação para quem deve atuar, com treinamento, educação  experiência além de fatores intrínsecos, como maturidade, temperamento e personalidade.

Existem gestores que podem ser excelentes em várias funções administrativas, mas são incapazes de funcionar no ambiente de ritmo acelerado de um incidente crítico no qual há pouco tempo para refletir e certamente nenhum tempo para questões de pessoal, como geralmente é feito com questões menos urgentes. As decisões táticas devem ser tomadas e executadas em segundos, pois vidas estão em riscos.

O fator fundamental nos incidentes de conflito é o desacordo irreconciliável entre partes com interesses contraditórios, essas situações são especialmente suscetíveis a mudanças e são inflamadas e moldadas por emoções e personalidades humanas e como resultado, o elemento humano tende a ser não apenas um fator importante, mas também altamente imprevisível.

Como quinta característica, o risco está intrínseco em todos os incidentes críticos. Alguns riscos são diretamente ligados aos gestores, principalmente quando o tomador de decisão é exposto a danos físicos ou emocionais ou quando o fracasso pode resultar em dificuldades ou contratempos na carreira.

Também haverá riscos para os outros, como quando os esforços para alcançar uma resolução bem-sucedida aumentar o risco dos agentes que vão atuar diretamente na área quente do incidente.

Quase sempre, há risco organizacional, esse risco pode envolver perda de equipamentos, ativos ou prestígio. Os gestores tentam reduzir o risco buscando informações melhores, mais oportunas e mais precisas, mas como isso nunca é totalmente possível, o risco é inevitável, principalmente no momento do caos, onde as melhores informações ficam relegadas a um segundo momento.

Essas cinco características se tornam presentes de inúmeras maneiras e combinações em todas as operações em incidentes críticos. Os gestores que reconhecem que são intrínsecos a toda e qualquer incidente não são tão propensos a serem surpreendidos ou desencorajados quando experimentados. Entretanto, não estão isentos desses erros, todas as formas de planejamento e preparação são utilizadas para mitigar e restringir esses erros, mas essa variável não pode ser excluída da equação, jamais pode ser condicionada uma ação em um incidente crítico a garantia de uma ação perfeita, pois tal situação não existe.

Conclusão

As habilidades essenciais para autuar em incidentes são inúmeras, mas são relativamente fáceis de ensinar e aprender. O conhecimento e a compreensão do que está efetivamente acontecendo são muito mais complexas e exigem uma análise e atenção aos fatores e influências envolvidas e da forma como eles interagem, gerando uma reação durante e após o incidente.

Somente através do auto estudo os gestores das organizações responsáveis em atuar nos incidentes críticos vão construir uma estrutura interna sistematizada de conhecimento profissional e, assim, aproveitar os erros de incidentes anteriores para buscar e criar uma biblioteca de lições aprendidas para que  se possa salvar vidas e gerir os recursos com mais eficiência, podendo transmitir esse conhecimento para os demais gestores e operadores do gerenciamento de incidentes, poupando-os da necessidade de tomada errada de decisão para o seu aprendizado.


Fonte:  4 Pinterest

O conhecimento das formas de ação e das fases de um incidente crítico permitem estudar sua anatomia e preparar os gestores para suas ações, conhecendo suas características, como ditadas por Heal (2012), aumentando as chances de sucesso, sempre lembrando que o risco da imperfeição é iminente e faz parte das ações dos tomadores de decisão.

Os incumbidos por essas organizações enfrentam responsabilidades de vida e morte e cabe a eles compartilhar estruturas para aprender e aplicar, afinal, quando vidas estão em risco  não se pode dar ao luxo de tropeçar ante o estabelecimento de uma resposta.

Referências

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HEAL, C. S. Field Command. New York: Lantern Books, 2012.

HEAL, C. S. Tactics, Techniques and Procedures (TTP). The Tactical Edge, p. 70, Summer 2015.

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MCCHRYSTAL, S. A. Tem o teams: new rules of engagement for a complex world. Recife: Portfolio, 2015.

MISTER POSTMAN – MARKETING DIGITAL. A importância de um bom briefing para a sua estratégia. Mister Postman Marketing Digital, 2019.

 

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